António Olaio é um artista plástico cuja obra ocupa um lugar precisono panorama da arte portuguesa contemporânea. A cumplicidade do seutrabalho de pintor, músico, professor (para não dizer de indivíduo),com o campo cultural que Marcel Duchamp desbravou, é explicita eimplicitamente permanente. Neste livro, navegando nas pistas que asobras e os escritos de Duchamp fornecem, Olaio entrega-se à reflexãoteórica que um espectador informado pode construir, partindo dosefeitos das obras e da complexidade do acto de percepção. O resultadoé uma perspectiva que abdica da leitura histórica e da decifraçãopsicanalítica, para se posicionar no campo da comunicação. Cumprindo o papel de espectador disposto a encarar a obra como mistério, abandona os domínios da racionalidade científica para arriscar o domínio daintuição e a construção de uma tese no próprio território conquistadopelo trabalho de Duchamp. O livro explora a ideia de indivíduo e dacriação artística na complexidade das suas relações, afastando a ideia romântica do artista portador de uma subjectividade singular edefinindo-o no âmbito de uma relação dinâmica entre habitar,habituação, habitat, habilidade, indiferença, indiferenciação,banalidade e do simbólico. No interior dessa multiplicidade derelações conceptuais e da dissolução da imagem formal, entende-se anoção de plasticidade ultrapassando a tradicional visão formalista daarte, descobrindo-se como o universo das ideias pode participar naprodução de plasticidade na obra de arte. O confronto da arte com aracionalidade evidencia a capacidade desta atingir domíniosinacessíveis à simplificação racional, desbravando a ambiguidadeatravés da clarificação do valor da intuição e distinguindo ainteligência da razão. Daqui se depreende que a dimensão mental doespaço na obra de Duchamp, é capaz de ampliar a noção para além damera representação metafísica ou mensurável. Neste novo espaçoconquistado com a intuição é possível utilizar o humor objectivando aexperiência do universo onírico. A imaginação concretiza-se numarelação empírica do indivíduo com o universo das coisas e das ideias,numa a subtileza que conduz à noção de inframince. O interesse destetexto, numa colecção dedicada ao aprofundamento dos discursosdisciplinares da arquitectura, nasce da sua estratégia de análise quenão cai na tentação de relacionar directamente as obras de Duchamp com o carácter arquitectónico que se poderia descobrir em cada uma delas. Oferece-se um entendimento alargado de noções essenciais no campo daarquitectura, inevitavelmente concebida e habitada no domínio dasideias.