É uma obra mágica por excelência, como diz Urbano Tavares Rodrigues,onde tudo se agita - seres humanos e vegetais, bichos, água dos açudes - na louca dança da vida. É o retábulo da essência humana e sabedoria dos mais humildes. É a história de Picholeta, história de amor e desobrevivência, da fé que a leva a oferecer as argolas de ouro àSenhora do Pranto. Quando um dia as quis reaver, já tinhamdesaparecido. Certa noite regressa a casa com um grupo de rapazes, osda Gralheira, frustrados por não terem encontrado maneira dedescarregar a libido na festa pagã do lugar. Às tantas convidam-na alibertá-los, um após outro, daquela pressão insuportável. No fim,levam-na às cavalitas, revezando-se pelo caminho, até a deixarem àporta do seu casebre. Perdido o gosto pela vida, assiste um dia,durante uma romaria, ao leilão das argolas e fica a saber que valiamcento e vinte contos de reis, quando ao longo de toda a sua vidararamente gozara cem escudos na algibeira e com os filhos mortos defome. Só então percebeu o abismo da sua miséria, naquele lugarejo deque poucos ousaram evadir-se, acabando por concluir em desabafo de umdestino sofrido: «Deus foi injusto comigo».