A arquitectura de Balthasar Neumann não representa a abertura de umnovo caminho na história da arquitectura europeia, antes exprime umasíntese dos modos que foram sendo exploradas pelos precedentes autores do barroco da Europa Central. Competiu com a grandiosidade deVersailles nos palácios para os príncipes da Francónia, organizou aarticulação dos espaços elípticos nas igrejas à maneira da sua Boémianatal, aplicou a lição renascentista nas composições em geometriasimetrizada, explorou a articulação das formas nas mais largaspaisagens, jogou com o cromatismo e a luz intensa na criação deatmosferas nos espaços interiores. Recorrendo a uma sabedoriaconstruída na exploração das técnicas, trabalhou o projecto como obrade arte total, como se fosse pauta de música que não deixa margem para equívocos na sua execução. Gémeo espiritual de Juan Sebastian Bach, é mais um notável personagem da última expressão do barroco alemão como encanto, o rigor e a sensibilidade compositiva que nos deixasuspensos perante o enigma da qualificação da arte. Por isso elegiNeumann como o principal actor deste momento da arquitectura europeia. Chamei-lhe o último arquitecto barroco. É exagerada a afirmação quepretende tão só por em destaque um momento da história da arquitectura ocidental que, pela extrema intensidade com que trabalha os problemas do espaço na sua relação com os significados sociais que a suportam,anuncia o inevitavel passo seguinte de regresso à essência das formasmanuseadas pela capacidade inventiva dos artistas. Ele representa toda uma geração que preencheu a primeira metade de setecentos no vastoterritório dos domínios da autoridade espiritual da igreja de Roma,que perdurou até à ascenção ao poder da burguesia saída da actividadecomercial à escala dos oceanos da Terra. Todo o ciclo clássico que sedesenrolou na Europa consistiu numa importação da moda de fazer àitaliana em geito de modelo fingido de ´Roma antiga´. Nas áreas donorte ditas germânicas ou saxónicas, foram-se viciando as formas dofazer gótico com a pimenta dos mercadores italianos que atravessavam o continente a partir do sul. Mas não há só fenómenos de viciação dasculturas num único sentido. A infectação dos modos importados pelassólidas práticas regionais condicionadas pelo valor intrínseco daspermanências sócio-culturais, vai provocando as especificidades decada maneira regional, que também funciona para a exportação econtaminação no sentido inverso. Foi o que aconteceu quando oscriativos formaram a sua personalidade na lição clássica e no exemplodos antigos, enquanto liam as experiências dos que ainda lhes estavampróximos. A sua base cultural não deixou de ser profundamente marcadapelos valores empíricos que persistiam no seio das suas comunidades eque, caminhando pelo inconsciente dos comportamentos e atitudes, veioa determinar uma parte substancial do estilo próprio, retirandouniformidade e coerência à importação do clássico. Por outro lado aloucura fundamentalista dos contra-reformistas autoritários esbarroumuitas vezes com a vontade de rigor científico e o gosto pelacriatividade serena de artistas que, aínda que fieis aos seus senhores e modestos na sua presunção, não abdicaram dos actos de inteligênciapara a produção da obra de arte. Por esse caminho, recusaram o apelo à irracionalidade instintiva, racionalizando o recurso aos modosperceptíveis do fazer. Este é também um aspecto pela qual a obra deBalthasar Neumann me parece não ser original, mas absolutamenteexemplar. Ela representa a resistência subtil da atitude inteligente,estudiosa e interventiva que foi estando presente ao longo destesmomentos de inovação temática em tempo de renascimentos clássicos. Com a delicadeza de quem cumpre os desígnios dos patronos e a forçacriativa pessoal capaz de deixar um rasto de beleza sensível no seupercurso de vida.