É um diário sentimental o conteúdo destas páginas de João de AraújoCorreia, mas um diário sentimental em que a vida lateja, linha apóslinha, página que segue outra página. Não se esquece Araújo Correia do amor que devemos à nossa língua, dos elos que nos ligam ao Brasil, da paisagem humana e geográfica do nosso nordeste. Em tudo isto está ocriador de ficção, mas está também o artista, a sensibilidade doduriense a descobrir no dia a dia dos seus olhos rasgados os motivosde renovação da sua literatura, da sua presença literária, do seuestilo, dos seus contactos com os entes seus semelhantes. Ponto deencontro entre o passado e o presente Araújo Correia relembra osgrandes do seu sítio, do seu regionalismo universalista - sejam elesos médicos, os romancistas como Camilo ou os narradores seus mestres e seus iguais, como Trindade Coelho. O volume Manta de Farrapos é tãofora do comum e o seu estilo é tão permeável ao diálogo que, mal elese encontra lido, logo dá vontade de se voltar ao princípio. A liçãolarga que de ele se colhe fica amplamente documentada nesse desejo, um desejo que se espraia por mais de duas centenas de páginas. É esta aoriginalidade de Manta de Farrapos que quase dá vontade de classificar como manta de brocado.