«A história da filosofia não é uma disciplina particularmentereflexiva. Antes é como a arte do retrato na pintura. São retratosmentais, conceptuais. Como na pintura, é preciso fazer parecido, maspor meios que não são parecidos, por meios diferentes: a parecençadeve ser produzida, e não meio de reproduzir (o autor limitar-se-ia arepetir o que o filósofo disse) (à) A história da filosofia deve, nãorepetir o que disse um filósofo, mas dizer o que ele subentendianecessariamente, o que ele não dizia e que está porém presente no queele dizia». Bastam decerto estas palavras do próprio Deleuze paradesautorizar este nosso estudo, sem dúvida demasiado escolar,reprodutivo. Mas talvez não completamente frívolo, atentando naescassa bibliografia sobre ele existente, sintomática mas injustaressonância da coerência exemplar de uma criação avessa a compromissos com as condições da época. Através de um jogo de colagens de textos,de manipulações e de simplificações, de omissões e de ênfases,quisemos extrair da complexa obra deleuziana uma sóbria linhaarticulatória capaz de se propor como uma auto-apresentação docriador. E de traçar os contornos originais da sistematicidade e,nesse sentido, do ostensivo classicismo de um dos mais estimulantespensamentos do nosso tempo. [...] A concluir, como caracterizar emtermos sumários o efeito único do trabalho de Deleuze sobre a cenafilosófica, como dar conta do efeito-Deleuze? Como dizer odeleuzianismo como Acontecimento filosófico? Um vento, uma ventaniarefrescante, uma atmosfera mais respirável, mais habitável, maislivre. A suscitação do desejo, desejo de pensar, de ver e de ler mais, sem proceder por memória, por consciência cultural, vontade de umavida mais intensa, um irresistível efeito nómada, segredo de estilo. A filosofia como pathos, uma paixão de pensar motivada nãoimediatamente por problemas, muito menos pela tradição, mas sempre por circunstâncias práticas, por situações concretas, por estadosvividos, e como sua despersonalização. O pensamento como heterogénese, mas em nós, de nós. O conceito como passagem de um concreto a outroconcreto, a teoria como passagem de uma prática a outra prática.Vitalismo. Viagem.» [da Conclusão]