A obra teórica e prática de Guarino Guarini ganha particularrelevância na história da arquitectura ocidental por ter colocadovárias questões relacionadas com a ideia de que os esquemas daslinguagens clássicas não são imutáveis e podem ser corrigidos emfunção das necessidades do tempo moderno, incluindo a exploração devariantes dinâmicas para as diferentes formas dos templos. Como padree arquitecto interno de uma organização religiosa, foi na concepçãodas igrejas que mais concentrou atenções, mas não deixou de colocar em evidência um método de pensar o projecto independente do programafuncional que se torne necessário resolver. A originalidade ebrilhantismo das obras efectivamente realizadas granjeou-lhe oreconhecimento dos contemporâneos e foi até capaz de ultrapassar ahostilidade e desinteresse das gerações seguintes veiculadoras doideal neoclássico, sendo reconduzido ao centro do debatearquitectónico pelos mais prestigiados historiadores do século XX.Representa o prolongamento da experiência de Borromini, mas apoiadapor uma formação em filosofia mais estruturada, própria de um homemque defendia a escolástica de base aristotélica. O livro de GuarinoGuarini, Architettura Civile, passou então a figurar no rol datratadística específica da disciplina no grupo dos primeiros textoscientíficos da época moderna. Suportado pelo domínio das matemáticas e pela reflexão filosófica, filiou-se no campo da geometria projectivadando corpo ao teorema de que as linhas paralelas se encontram noinfinito e assim resolveu a ambição herdada dos construtores medievais em tempo gótico no sentido de elevar até Deus a ideia daverticalidade do espaço religioso. Por outro lado, ao submeter a ordem espacial à ideia de representação do não finito, concentrou as maisvistosas experiências arquitectónicas na determinação das condições de eficácia das plantas centralizadas, as que melhor expressavam o jogoascensional das formas em complexos fortemente luminosos. Trabalhoucom o desenho dos arcos parabólicos sob a luz intensa extraída dascoberturas para criar um quadro espacial flutuante, capaz de provocaro enigmático sentimento de estupefacção e maravilha como um outrocaminho para abrir a curiosidade e inteligência do espectador. Acapacidade de conjugar os princípios geométricos estruturadores daforma com a interpretação do comportamento dos potenciais utilizadores da sua arquitectura, constituiu outra lição inovadora, a que sejuntou a hábil utilização dos complementos decorativos, convencionaisou inventados, com recurso a materiais brilhantes ou à cor intensaintegrada na manipulação arquitectónica do claro-escuro, paraconquistar a admiração das pessoas simples. Curiosamente, só asigrejas de planta central realizadas em Turim na parte final da suavida sobreviveram relativamente intactas até aos nossos dias. Mas osdesenhos amplamente divulgados na passagem para o século XVIII e adoutrina expressa no seu tratado de arquitectura, acabaram por terinfluência decisiva no desenvolvimento da linguagem barroca na Europacentral. Contradições internas saídas do individualismo no modo deencarar a dúvida, explicam o ecletismo e a diversidade de maneiraspara enfrentar os caminhos da produção artística. A transgressãopremeditada de regras clássicas como a simetria, organizaçãoperspéctica, proporcionalidade e sequências, passou a constituirprograma pessoal de cada pintor ou arquitecto, prevalecendo aambiguidade, o arbitrário e o gosto pela afirmação do profano contra o sagrado, do erotismo contra o discurso da moral pública. Se asprimeiras obras de Roma realizadas por Giulio Romano revelam jáindícios da descrença nos enunciados formais do modo antigo, foi naprodução para o duque de Mântua que melhor se exprimiu o seu génioirreverente, com recurso à transgressão sistemática dos códigos dereceitas clássicas. Amante do desenho erótico, pintor de fantasiasmitológicas em perspectivas dos mais estranhos ângulos, aplicou naconcepção de palácios todas as artimanhas do fingimento, para iludir o sentido normal dos usos e ridicularizar a nobreza das formasconstruídas. O falso aparelho almofadado romano, porque executado embarro em vez de pedra, transformou-se em ciclópico. Taparam-se arcos e vãos, negando-lhes o sentido de passagem. Enrolaram-se as colunas,suspensas das paredes que deviam justificar. O código das receitasclássicas funcionou apenas como garantia do efeito transformador,referência para a compreensão dos erros. Não se pode considerar que orecuperado tratado de Vitrúvio constituísse um código de linguagemarquitectónica assente num conjunto coerente de regras. Mas a vontadede acreditar na existência de um sistema organizado de saberes, levoualguns intelectuais a acreditar que aquele testemunho do arquitecto de César abria caminho até à divina perfeição. O texto de Vitrúvio, mais precoce que o Império Romano organizado, não tinha uma tão grandeambição. Os primeiros humanistas dedicaram-se a procurar e interpretar quantos possíveis escritos e documentos pude