À décima colectânea, Luís Quintais regressa aos seus lugares desempre: às «ficções supremas» de Wallace Stevens como único sentidoainda disponível, à prosa enquanto território especulativo, àsdesumanidades de um século impiedoso, de que o Holocausto é exemplo,mais do que símbolo, à modernidade sem «aura» mas ainda com vestígiosde uma aura, de um esplendor.,Vivemos num tempo «depois da música»,como se diz «depois da Deus», mas depois da música, e por causa damúsica, fica ainda um fogo que arde e se vê, como em Bach, deusmortal, ou nas canções de Billie Holiday. Depois da Música nãodesespera por completo da poesia, essa arte dos duzentos exemplares: a poesia é a resistente e discreta possibilidade de deixarmos registode mais um dia na terra, da vertigem do mundo, das ilusões e derrotas, de filhos, amigos, mestres. Acto gratuito, imagem dentro das imagens, o poema faz com que «uma árvore» signifique «apenas uma árvore» oumuito mais,que isso: a própria figura da poesia, «um horizonte deárvores negras / desenhado no chão da biografia, // uma forma demelancolia consentida».