A arquitectura francesa na sua passagem dos estilos medievais para alinguagem clássica não se caracteriza por ser obra ´de autor´, antesexprime uma tendência para a transformação de ideias e vontadescolectivamente assumidas em sectores da sociedade que se podemconsiderar os ´autores colectivos´ de novos monumentos, num processode criação lento agregando em cada obra de base tradicional oselementos importados que a moda ou necessidades de um tempo sugerem.Assim também ´a arquitectura do renascimento´ chegou a França como uma moda da casa real que transportou consigo mais discurso que teoria,mais imagem circunstancial do que outra sabedoria de fazer. Enquantoos criadores importados de Itália discorriam sobre a modernidade dasua arte nos salões da corte, os construtores iam marcando as obraspor adição sucessiva nas tradições de cada tempo, levando os sintomasda crença na maneira gótica até uma idade muito avançada doclassissismo. Então porque eleger Philibert Delorme para expressar ostraços fundamentais de uma nova arquitectura na estabilização da idade moderna nos senhorios unificados da Gália, se predomina nessa fase aindefinição de autorias? Afinal nem uma só obra deste arquitecto terápersistido que possa traduzir a relevância que teve a sua acção aoserviço dos monumentos de França quando se começava, finalmente,aconsolidor a tendência classissista em detrimento do gótico final.Mais do que a pouca obra persistente da enorme quantidade de pequenose grandes projectos realizados, importa avaliar o impacto que teve natransformação da cultura arquitectónica a personalidade daquele que éem geral considerado o mais importante arquitecto do renascimento emFrança. Por um lado actuando na formação de um modo nacional deinterpretar a imparavel expansão do classissismo na Europa, devida arazões filosófico-políticas bem mais largas do que uma moda de fazerigrejas ou palácios. Por outro lado assumindo-se como paladino de umprofissionalismo na área específica da arquitectura entendida comodisciplina autónoma das outras artes visuais no perseguimento dabeleza. Relendo Alberti e através dele compreendendo a memóriarenascentista de Vitrúvio, Delorme pode expressar através de umdiscurso teórico bem ilustrado no seu Premier Tomo do tratadoArchitecture, os caminhos de uma profissão exigente enquanto práticaartística suportada pela competência científica e técnica e balizadapela teoria reflexiva algo moralista que o seu estatuto de ministro da igreja lhe conferia. A arquitectura é uma arte da invenção ePhilibert Delorme foi o mais empenhado e inspirado inventor do seupaís à entrada da era moderna, contrariando as regras estáticas dascorporações ligadas à construção, encetando caminhos libertadores queabriram perspectivas para o desenvolvimento das novas formas. Outromotivo pelo qual é importante o papel por ele desempenhado no quadroda sociedade do seu tempo é o de ter trabalhado na definição de umaordem francesa na construção do classissismo europeu, interpretando de perto as ruínas da antiguidade para coerentemente ensaiar um modo defazer próprio do seu espaço cultural. Usaremos na ilustração do textovários desenhos de Jacques Androuet Du Cerceau, que publicou Les plusexcellents bastiments de France. Parece que Delorme não manifestavagrande simpatia pelo seu contemporâneo, denunciando os maus retractosfeitos por fazedores de desenhos e gravadores ignorantes. Mas foigraças a esse registos dos castelos de Saint-Maur, de Saint-Léger, deAnet, de Saint-Germain, de Chenonceaux e das Tuileries que foipossível trazer até hoje a parte principal dos trabalhos realizadospor Philibert Delorme, consolidando o seu prestígio como o primeiroarquitecto francês do renascimento.