PIALOUX E CHRISTIAN COROUGE, MICHEL
Nas páginas que lemos, cruzamos a prosa do mundo da fábrica Peugeotsituada em Sochaux, largando, caminho fazendo, o lastro deideias-feitas que partilham o romantismo e o miserabilismo dos olhares lançados de longe, social e fisicamente, sobre a existência operária, de modo a conseguir recuperar os signifi cados e sentimentos que sãohabitualmente usados pelos próprios operários para atribuir coerênciaa uma experiência social específi ca, a qual veremos em todo oesplendor da sua banalidade. Aos inúmeros méritos que têm as CrónicasPeugeot, crescentemente reconhecidos como comprovam as sucessivashomenagens públicas que recebeu recentemente,3 podemos acrescentareste compromisso irremediável com a espessura do mundo operário, semseguir com a obsessão intelectualista de inventar uma visão heróica ou pânica dos humilhados e ofendidos com intenções de instrução pública(ou doutrinação, se quisermos). Tais operações de denúncia ouexaltação signifi cam trocar o suposto conhecimento do social por umaapropriação - que é, correlativamente, uma expropriação - do poderplenipotenciário de produção da imagem pública do operariado pelosintelectuais que supostamente a irão explicitar, indo inclusivamenteao ponto de pretenderem prescrever aos operários as maneiras de serque lhes são próprias, consolando-os ou censurando-os quando forpreciso. Em inúmeras ocasiões, por trás dos melhores propósitosintelectuais esconde-se, sem termos que supor uma intenção conscienteda parte de quem quer que seja, um paternalismo intelectualista, emque os propósitos emancipatórios ou disciplinadores convergem, sem com isso dizermos que eles se equivalem de repente, tratanto ambos ooperariado como entidade sob tutela epistemológica e política, a coisa que elas irão, respectivamente, educar ou domesticar para umaconsciência de si ou para a utopia de uma produtividade sem fi m (étristemente irónico que o operariado seja tratado como objecto deespeculação até por quem o eleva a sujeito da história). De facto, ooperariado é tratado pelas duas variantes de pensamento escolásticocomo uma classe-objecto, a qual vemos constantemente ser explicada sem ter oportunidade de se explicar.